30.3.11

No telhado de lajes quentes...



Pela tardinha, gostava de se sentar no telhado de lajes ainda quentes do sol da tarde. Estava sempre a remendar qualquer coisa. Geralmente eram chapões de remendos que colocava em cima de outros, que, por sua vez, se tinham já rompido. Mas o que importava mesmo era estar entretida com alguma coisa. Outras vezes também me fazia tranças no cabelo. Sempre mais do que duas, por via da grossura do cabelo! Chegou a fazer-me meia dúzia em volta do pescoço.
Pouco me lembro do que falávamos nesses bocados, visto que a tenra idade que tinha não me permitiu gravar tudo como devia ser, mas as histórias de tempos muito antigos, que falavam de lobos e de crianças que guardavam rebanhos sozinhas no cume da serra, essas, estavam sempre presentes. E eu, sentada ao seu lado, vibrava com cada uma delas como se as ouvisse sempre pela primeira vez, ainda que fossem as mesmas.
Houve uma que me marcou mais do que as outras; contava que certa vez, na sua meninice, e numa dessas idas até à serra, para onde a mandavam com o rebanho de ovelhas, deveria ser perto do meio dia, quando, subitamente, escureceu como se fosse noite! Os animais, baralhados, ou movidos pelo instinto, vieram deitar-se ao seu lado apaziguando-lhe o pavor que sentia. Ao contar-me aquilo, e passados tantos anos, ainda não sabia a explicação para o que lhe tinha acontecido. Hoje todos sabemos que se tratou de um eclipse total do sol, mas a minha avó, que muito provavelmente foi testemunha de um fenómeno raro a que só uma pequena parte da humanidade assiste, viveu e morreu sem o saber. Mas, se calhar, isso nem seria assim tão importante para si...

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